Pular para o conteúdo
← Voltar para Insights
IAGestão ágilAgentes de IA

Quando o agente de IA ganha e-mail próprio e entra no board, ele é membro do time?

Rodrigo Alves Colonetti
Rodrigo Alves Colonetti·

Na quarta-feira, 8 de outubro, durante o evento Gemini at Work, o Google apresentou o que chamou de "agente universal para o trabalho". Li o anúncio oficial e a cobertura da TechCrunch, e a pergunta que ficou na minha cabeça não foi técnica. Foi uma pergunta de quem coordena time: se isso chegasse amanhã na minha equipe, o que eu faria com ele no board?

O que foi anunciado

Segundo a TechCrunch, Thomas Kurian, CEO do Google Cloud, descreveu um agente que aceita "objetivos, não só instruções". Ele planeja o trabalho, usa habilidades e ferramentas e se conecta a Google Workspace, Microsoft 365, Slack, Jira, Confluence, Git, bancos de dados e servidores MCP. O detalhe que mais chamou minha atenção é que ele tem conta própria no Workspace, com endereço de e-mail e contexto próprios. Sabe quem está em cada equipe, os fusos horários, quem precisa aprovar o quê, e pode ser acionado por menção, e-mail, compartilhamento ou chat em grupo, como qualquer colega.

Do lado da transparência, existe um painel de tarefas que mostra o raciocínio do agente, a delegação para subagentes e o progresso do trabalho. Cada ação fica registrada em trilha de auditoria, atribuída ao agente e não a uma pessoa. O lançamento começa pelas empresas e depois chega ao consumidor. Vale registrar também que o agente escolhe o modelo mais adequado para cada tarefa e permite escolher outros, incluindo o Claude, da Anthropic, como primeira opção de terceiros.

Como não testei nada disso, então o que dá pra avaliar hoje é o anúncio, não a experiência de uso. A própria cobertura não detalha preço nem os controles de permissão, e o Sundar Pichai reconheceu que ainda existem desafios de segurança, escala e desempenho a resolver.

A linha que me fez parar

Foi a da trilha de auditoria: ação registrada em nome do agente, não de uma pessoa. Pra quem trabalha com Scrum, transparência é um dos três pilares do empirismo, então registrar tudo é ótimo. Mas registrar quem fez não é o mesmo que saber quem responde.

Em um time, responsabilidade tem endereço. Exemplo, o Product Owner responde pelo conteúdo e pela ordem do backlog, os desenvolvedores respondem pela qualidade do que entregam, o Scrum Master responde pela eficácia do time. Quando um agente com e-mail próprio mexe num item do Jira, atualiza uma página do Confluence e manda mensagem pro Slack, o log diz "foi o agente". Só que o agente não vai participar da retrospectiva pra explicar o que aconteceu, nem vai ser chamado pelo diretor quando a entrega sair errada.

O David Sabine, num texto no Scrum.org, defende que a IA muda como os times trabalham, mas não enfraquece o Scrum, e que a responsabilidade continua humana. Ele sugere, por exemplo, que a Definição de Pronto declare como o código gerado por IA é usado e verificado, com registro de prompt, versão do modelo e data. O Gartner, em relatório citado pela Cora Systems, vai na mesma direção: agentes de IA não podem ser entidades responsáveis. Concordo com os dois, e o anúncio do Google só deixa a questão mais concreta, porque agora o agente não é um botão dentro de uma ferramenta, é um "colega" com caixa de entrada.

Membro do time ou ferramenta com nome próprio?

Minha leitura é que ele vai se comportar como membro do time, mas não pode ser tratado como membro quando o assunto é accountability. Recebe tarefa, aparece no chat, responde e-mail, e por isso as pessoas vão tratá-lo como colega, o que é natural. O risco é a gente herdar o comportamento de colega sem herdar o que sustenta um colega: alguém que responde pelo que fez.

Por isso eu levaria algumas perguntas pra próxima retrospectiva, antes de dar acesso ao board. Quem é o humano responsável por cada agente, com nome e sobrenome? O que o agente pode fazer sozinho e o que exige aprovação antes de acontecer? E como a gente vai olhar o painel de tarefas e a trilha de auditoria: só quando algo der errado, ou como parte da revisão da Sprint? São decisões de acordo de trabalho, o tipo de coisa que o Scrum Master já sabe facilitar. Só não dá pra deixar pra depois que o agente já estiver mexendo no backlog.

Se a sua empresa usa Jira, Confluence e Slack, é bem provável que essa conversa chegue até você antes do que parece. Melhor chegar com o acordo de time pronto do que descobrir as regras pelo log.

Fontes: TechCrunch: Google brings agentic AI to Gemini, starting with businesses, Google Cloud: Gemini at Work, Scrum.org: AI Is Rewiring Scrum Teams, But Not Scrum, Cora Systems: AI Project Portfolio Management

Pacote vitalício

R$ 39,90 · acesso a todas as skills, agentes e ao ebook.

Ver pacote